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(Sem título)

— Você não é mais a minha filha! — O homem berrava feito um louco — Eu nunca teria uma filha que aos catorze anos… Normaci! A culpa é sua! Claro que é, claro que é! Você não soube educar essa menina… e não me venha dizer que eu fui um pai ausente, porque se eu trabalhava feito um condenado era pra dar uma vida melhor a essa, essa… Você sempre teve o que quis: as melhores bonecas, o quarto dos seus sonhos, as melhores escolas, viagens e pra quê? Hein!? Pra quê? Maldita hora em que eu não briguei pela guarda quando nos separamos. Com certeza agora seria outra coisa… Agora não é nada! Pra mim, ó, vocês duas são nada!

— Pai…

— Sumam daqui! Esqueçam que eu existo porque eu… eu já esqueci de vocês. Não apareçam mais em minha frente!

Sete meses se passaram. Meses de silêncio. Nenhum telefonema atendido ou e-mail respondido; nenhuma visita aceita em casa ou no escritório; portas e portões impenetráveis… Nada. Só o silêncio doloroso de um pai que não aceitara a gravidez precoce da única filha. O pai do bebê? Viajou, logo depois da notícia para um destino desconhecido e não mais se ouviu falar dele, não era pai. Agora, eram só as duas e, em breve, as três: mãe, filha e o bebê que  já dera sinais que estava para vir ao mundo a qualquer momento.

— Será que o meu pai vem, mãe?

A mãe abaixou a cabeça, apenas. Já havia deixado vários recados na secretária eletrônica sem resposta a nenhuma delas. Estava exausta. Há meses trabalhava dobrado para ganhar o sustento dela e da filha, que tivera que acostumar-se com menos do que tinha, e para o pequeno enxoval da neta. Não contava mais com a ajuda financeira do ex-marido, e também não recorreria à justiça, afinal, acreditava que era só uma fase, apenas uma fase.

— Minha filha não vai ter pai, mãe… assim como eu também não tenho. — Disse chorando e soluçando.

— Não fala assim, meu amor. Olha pra mim, Bianca, seu pai só estava magoado quando disse tudo aquilo. Ele te ama, querida. Você é tudo pra ele, a única filha que ele lutou tanto pra ter… Mágoa passa, demora, mas passa.

— Mas já faz tanto tempo, mãe…

— Gabriel é orgulhoso, filha, você o conhece.  E… se ele não vier, quem perde é ele. Tenta dormir um pouco, vai. Daqui a pouco a enfermeira vem te buscar, e acredite, depois que essa menina nascer, nunca mais você vai dormir direito.

Ela chorou, chorou, chorou e adormeceu.

A sala estava mal iluminada. O único acesso pelo qual a luz conseguia entrar era uma janela semiaberta, e onde, provavelmente, seria também o único meio de ventilação. Um vulto se divisava sentado na velha poltrona, cabeça baixa, mão no queixo. Estava imóvel. O cinzeiro cheio sobre a mesa e o cheiro espalhado no ambiente denunciavam que voltara ao hábito de fumar depois de mais de quinze anos de abstinência. Deixara exatamente durante o tratamento de fertilidade de sua ex-esposa.

Sentia-se morto. Morto para a vida. Entregara-se exaustivamente ao trabalho — era dono de uma pequena fábrica de bolsas, que lhe dava uma boa renda no final do mês —, até ganhou um prêmio, cobiçado há anos, como melhor da categoria e ao qual não deu nenhum valor. Seu médico recomendou-lhe repouso, que é claro não foi obedecido, por causa da hipertensão que se agravara desde então. Tornavam-se rotineiras as dores no peito, a falta de apetite e a dormência nos membros. Mas, e daí se morresse de fato? A vida já perdera fazia sete meses.

Talvez tudo estivesse diferente agora, se não tivesse desistido de atender o telefone, mesmo depois de já estar o segurando; se houvesse enviado os e-mails respondidos ao invés de excluí-los; ou se ao menos tivesse aberto as portas, de casa, do escritório… em vez de sentar-se junto a elas e chorar feito uma criança perdida e desesperada.

Mas, o que os amigos e os empregados da fábrica falariam perante tal atitude? Que era um pai complacente com os erros da filha? Que não soubera educá-la e por isso, passava a mão em sua cabeça… por outro lado, era sua filhinha. Sua pequena princesa a quem sempre desejara e lutara pra ter. A filha a quem tanto, tanto ama!

Eis a imagem de um homem curvado sob o peso da dúvida. Da luta entre o amor e o orgulho ferido.

Estava cansada. A cabeça doía. E estava feliz. O parto cesáreo, mais por sua idade do que por qualquer outro motivo, correra bem, assim como a sua recuperação. A pequena Marília havia nascido forte e saudável. Ah! Como estavam felizes!

A médica lhe dera alta e estavam agora esperando a pequena chegar do banho, já limpinha e cheirosa para irem pra casa. Mas, para grande surpresa da jovem mãe, a enfermeira entra no quarto sem o bebê nos braços, e antes mesmo de gritar “Onde está minha filha?”, a pequenina aparece carregada como o mais precioso de todos os prêmios nos braços do avô.

— Vim pra te levar pra casa, minha filha!

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